Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza so braços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai, e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre o nosso tumolo nasceram flores amarelas e medrosas.
- Carlos Drummund de Andrade. "Antología poética."
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso á vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas netrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nós afastemos.
Não nós afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suícida,
não fugirei pra as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes.
A vida presente.
- Carlos Drummond de Andrade. Antología poética."
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso á vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas netrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nós afastemos.
Não nós afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suícida,
não fugirei pra as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes.
A vida presente.
- Carlos Drummond de Andrade. Antología poética."
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